O nobre objectivo de tratar plenamente os nossos Doentes é no fim de contas o que nos deve motivar. Mas muitos obstáculos dificultam essa finalidade. Um deles é constituído pela vastidão da medicina e pela consequente necessidade de fragmentar o conhecimento no sentido de tender para o absoluto quanto ao fazer bem aos Doentes. Essa partilha, originando territórios técnico-científicos, tem como consequência a existência de fronteiras e a necessidade de um trabalho interdisciplinar. È aqui que se situa a Otoneurologia. A vertigem pertence indubitavelmente à Otorrinolaringologia. Mas também pertence a outras Especialidades, nomeadamente à Neurologia.

A APO tem por finalidade aprofundar os conhecimentos neste domínio e assim ajudar Médicos e Doentes em vários campos, nomeadamente o quase sempre nebuloso e complexo diagnóstico da vertigem. Não poderá haver, portanto, uma compartimentação quase estanque da ORL e da Neurologia neste domínio, e a Otoneurologia baseia aqui o seu interesse inquestionável. Dizendo respeito a várias Especialidades, não se justifica ficar como apêndice ou secção de uma. De facto o Médico dedicado a esta área deve aprofundar os seus conhecimentos de anatomofisiologia, de semiologia, de patologia e de terapêutica dizendo respeito a um conjunto de sintomas que pode ter origem quer no ouvido interno, quer no ângulo pontocerebeloso, quer nas vias centrais da audição e do equilíbrio.

Todos sabemos dos complexos progressos que esta área sofreu nas duas últimas décadas a ponto de chegarmos à conclusão que a vertigem deve ser analisada e tratada em consulta própria, com recurso a meios de diagnóstico que nos permitam estudar atempadamente o funcionamento do RVO nas suas vertentes ampolar e otolítica (e tendo em atenção os movimentos da cabeça de baixa e sobretudo de alta frequência) e do RVE.

O Doente tem de ser tratado como um todo sendo necessário haver uma comunicação interdisciplinar fácil e intensa. Por isso tudo o que diga respeito a esta área no domínio das diversas Sociedades Científicas deve ter como centro, na nossa opinião, a APO. E esta deve procurar ter no seu seio Colegas que dediquem a este domínio o melhor do seu tempo e do seu esforço.

É com esse objectivo que temos realizado Congressos, Cursos, Reuniões Científicas que procuraram funcionar quer como modo de divulgação para os mais novos quer como intercâmbio entre os mais experientes.

Mas a proliferação destas Reuniões dentro de cada Especialidade parece-nos nociva pela dispersão dos esforços e dos meios financeiros que para elas são indispensáveis.

Propomos que o esforço se concentre dentro de cada área e no intercâmbio entre elas, sob o controlo das diversas Sociedades ou Associações Científicas. São elas que, sem objectivos financeiros e apenas com fins científicos, podem aqui desempenhar um papel fulcral. Não pode haver desculpas de que não funcionam ou que são pertença de um grupo. Elas têm Assembleias Gerais soberanas onde, se os Profissionais não se demitirem das suas obrigações de participar, tudo pode ser corrigido. E são elas que podem contribuir para a análise dos aspectos medico-legais, cada vez mais presentes.

J. Carvalho Sofia