Homenagear o Prof. José Pimentel é um acto de elementar justiça. Sócio fundador e honorário da APO, membro primordial do Grupo dos Estudos da Vertigem (GEV) - que esteve na origem da nossa Associação, José Pimentel desempenhou desde sempre um papel importante na Otoneurologia em Portugal. Quando o GEV iniciou a sua actividade, eramos 4 (3 neurologistas e eu, ORL) e reuníamo-nos na Biblioteca do Serviço de Neurologia do HSM. Aí discutimos projectos e realizações, que fomos concretizando. O número de aderentes aumentou e incluiu colegas dos principais hospitais do país. A nossa actividade estendeu-se de 1994 a 1998. A designação foi da minha autoria que adaptei a sigla dum grupo importante existente em França, “Groupe d’Études des Vertiges”. E, depois de 98, surgiu a APO.
 
Será interessante salientar os interesses científicos dos 3 neurologistas fundadores. O Prof. Carlos Garcia foi uma referência no estudo e clínica das demências e fundou uma instituição reputada que perdura, para tratamento de doentes com Alzheimer. A Maria Helena Coelho dedicava-se à Doença de Parkinson e, quando com ela contactava, era Chefe da Consulta de Neurologia do HSM. O J. Pimentel dedicava-se principalmente à Neuropatologia e Epilepsia. Eramos, portanto, médicos com formações e interesses diversificados, mas que se cruzavam na Otoneurologia. 
Professor de Neurologia da Faculdade de Medicina de Lisboa, Director de Serviço de Neuropatologia do HSM e da sua Consulta de Epilepsia, são funções só por si elucidativas da importância científica de J. Pimentel. O cargo que desempenhou como Presidente da comissão de vigilância da variante humana de CJD (encefalopatia espongiforme) - a “doença das vacas loucas”, que causou enorme alarme na última década do século passado, é outro exemplo concreto do seu prestígio. Quanto à epilepsia é uma entidade já mais do âmbito otoneurológico e com que nos habituámos a conviver desde crianças nas suas formas mais exuberantes de convulsões, como foram admiravelmente descritas no Idiota de Dostoiévski. 
 
Da actividade do GEV salientamos várias reuniões com a participação de ORL, Neurologistas, Imagiologistas e Internistas, visando a formação de médicos de Medicina Geral e Familiar e outras já com a participação de convidados estrangeiros que contribuíram para difundir promover os nossos conhecimentos na área. 
O aparecimento da APO foi um passo importante para a aproximação das nossas especialidades, para a tentativa de criar directrizes comuns e aprofundar conhecimentos. Em todas as reuniões, nomeadamente nos nossos Congressos anuais, procurou-se sempre incluir um tema que atraísse mais os neurologistas, e nesse sentido o Prof. Pimentel, desempenhou um papel agregador. 
 
Resultante também da actividade da APO, espero que aumente o número de neurologistas portugueses a interessar-se pela Otoneurologia. Esta não é uma área da competência dos Otorrinos, como frequentemente se ouve. Há já hoje, felizmente, colegas de ambas as especialidades, que falam uma linguagem comum, reduzindo constrangimentos e atenuando as fronteiras entre as nossas especialidades. Tem de se criar uma valência que nos inclua a todos - que conheçam a fisiologia, anatomia do SNC, semiologia, exploração funcional, patologia e terapêutica. O conhecimento dos movimentos  oculares é o primeiro passo, mas estes não são só os nistagmos, nem o Otoneurologia se reduz ao estudo da oculomotricidade. 
 
Esse é um dos objectivos da APO e que o J. Pimentel bem definiu ao pugnar pela criação de uma sub-especialidade, em que estes campos sejam melhor desenvolvidos. Mas é preciso atrair mais neurologistas, o seu número é presentemente irrisório. 
Que o exemplo do Prof. J. Pimentel se amplie é o meu voto. O seu contributo científico, a disponibilidade manifestada para participar em todas as Direcções justificam a nossa gratidão e a homenagem que a APO lhe prestou no último Congresso em Évora.
                                                  
F. Vaz Garcia