Caros amigos brasileiros e portugueses,

Na minha qualidade de anfitrião cabe-me a tarefa de vos saudar e demonstrar-lhes, a todos, quanto nos sentimos felizes pela vossa presença. Em particular aos colegas brasileiros, expressar-lhes o nosso júbilo por podermos aproveitar um pouco da vossa competência. Não é fácil em qualquer reunião conseguir a presença de tantos e ilustres conferencistas que são figuras de projecção mundial na ORL. Perder os vossos ensinamentos é seguramente um desperdício ou uma distracção.

É talvez a oportunidade de relatar as circunstâncias em que nasceram estes encontros. Há cerca de 2 anos, durante o Congresso do NES em Bad Kissingen, encontrando-me a conversar com o Prof. Maurício Ganança, e ao constatarmos a numerosa presença de brasileiros e portugueses, este se interrogou por que razão não haveríamos de realizar uma reunião luso-brasileira?! Esta sugestão foi apresentada ao Dr. Cláudio Sandner, representante mundial do Betaserc ou Serc, e que tem a particularidade de ser luso-brasileiro e ao Sr. José Carlos Costa, actual Vice-Presidente da Solvay internacional.

A proposta foi aceite, o Prof. Maurício Ganança e eu próprio constituímos a Comissão Científica, e concretizou-se o 1º Dia Internacional da Vertigem que foi uma reunião de alto nível, a qual proporcionou também, sobretudo aos portugueses, a oportunidade de desfrutar uns dias magníficos no deslumbramento que é a Costa do Sauípe e a Bahia. E  de tal forma os objectivos foram atingidos que logo ali nasceu a ideia de a tornar, tanto quanto possível, periódica, realizando-se alternadamente nos 2 países.

No sentido de validarmos o conteúdo científico das Reuniões – que não a idoneidade dos palestrantes, foi pedida creditação pelas 2 Sociedades que em cada um dos países representa e agrupa os médicos que se interessam pela área da Otoneurologia. Esse reconhecimento foi quase imediato e, assim, temos tido o aval científico da Associação Brasileira de ORL, Sociedade brasileira de Otologia, SPORL e APO, a quem devemos palavras de agradecimento.

É justo salientar o enorme esforço financeiro que estas realizações representam para o Laboratório que as promove. Sem o investimento da Solvay internacional e das suas subsidiárias brasileira e portuguesa, elas não seriam concretizadas. Aliás, a Solvay é, provavelmente, o laboratório que na área da Vertigem, e a nível mundial, maior esforço financeiro tem feito, não só em investigação como em formação e sempre com inexcedível rigor ético. À Solvay, se tal fosse ainda necessário, manifestamos a nossa gratidão.

Para a organização deste 2º Dia luso-brasileiro foi estabelecido como critério a necessidade de diversificar os palestrantes, dando oportunidade a uma mais larga intervenção científica. E, em futuras reuniões, que ardentemente esperamos continuem a realizar-se, novos colegas serão convidados, exprimindo experiências e perspectivas, porventura diferentes, das escolas de onde são oriundos. E sem esta rotatividade não será possível tal objectivo. È esta a razão por que encontramos hoje uma larga franja de palestrantes que não estiveram presentes no 1º encontro.

A razão de ser destas reuniões é evidentemente científica e afectiva. Exprimimo-nos em português. Temos uma História partilhada e uma herança cultural de que nos orgulhamos mas que nem sempre é conhecida como merece.

Sabemos a importância que o inglês desempenha como língua standard na comunicação científica. Mas é no português com os seus diferentes sotaques que nos revemos. E é no Brasil que os portugueses se revisitam diante das construções de estilo colonial, no ritmo africano da sua música, na magia da sua literatura, na miscigenação a que deram origem, no grito libertário proferido por um príncipe português “Liberdade ou Morte”. Como para os brasileiros a visita aos Jerónimos ou à Torre de Belém ou a vista do Tejo, devem representar um regresso às origens. Camões é um poeta português ou brasileiro? 

Portugal é um país que vive hoje uma maré-baixa. Mas é no orgulho da sua História que nós, ORL, calorosamente vos recebemos. Voltem sempre! Bem-vindos a casa!

F. Vaz Garcia