Discurso proferido durante a Reunião Anual da APO em 2010  
 
A APO foi criada em 1998. Tem, portanto, 12 anos de vida. Contudo, já anteriormente um grupo de ORL e Neurologistas, com maior empenho meu e do Carlos Garcia, José Pimentel e Helena Coelho, tinham organizado várias reuniões científicas com edição dos livros de palestras, o que em Portugal é, infelizmente, raro. Foi uma actividade muito rica a desse auto-intitulado Grupo de Estudos da Vertigem (GEV), a qual deu origem a um livro “Vertigem e Desequilíbrio: noções básicas” cujo editor-principal foi o Carlos Garcia. Esse livro mereceu posterior tradução em Inglês e Espanhol.
 
    
Por insistência do Alberto Trancoso e Rosmaninho Seabra, criou-se a APO, que veio substituir o GEV. Tive a honra de ser o 1º Presidente. Como em todas as actividades sem fins lucrativos, o trabalho foi feito por carolice, fora das horas normais de trabalho. Criou-se uma estrutura administrativa, fizeram-se reuniões, cursos para Clínicos Gerais, obtiveram-se apoios, conseguiu-se sustentação financeira. A Associação estava lançada.
 
Entendemos ser necessário dar-lhe a maior visibilidade possível e facultar material de estudo e, por isso, construímos um site, o que na época foi inovador. Ele permitiu estreitar os laços com colegas brasileiros e de língua espanhola. Importante foi também a colaboração de figuras de relevo da Otoneurologia mundial ao aceitarem divulgar aulas ou palestras suas. 
Com a internet os conteúdos científicos podem ser acedidos em qualquer parte do mundo. Sabemos ser esse o caso, quando colegas brasileiros ou de outros países da América Latina conhecem a nossa existência e buscam o site para recolha de informação. Após um período de interrupção de 1 ano, tivemos mais de 2 milhões de visitantes, números que são motivo de orgulho. O www.otoneuro.pt tem sido um site relevante na aprendizagem de Otoneurologia. 
Reatando a história da APO: a Direcção seguinte foi presidida pelo Alberto Trancoso. Destaque para a Reunião do NES no Porto, que foi a mais participada a que assisti e, sendo embora uma realização autónoma, fez associar a APO a uma sociedade prestigiada. 
 
Depois, com o Carvalho Sofia realizaram-se reuniões no Norte, Centro e Sul, com particular destaque para o memorável congresso do João Martins em Angra do Heroísmo. Finalmente, a presente Direcção do Vítor Gabão que, com a sua bonomia, espírito conciliador, mas ao mesmo tempo, competência e dedicação, tem realizado um ciclo, a todos os títulos notável.
É consolador recordar os nomes dos convidados estrangeiros, alguns, presenças repetidas: Claude Conraux, Claus Claussen, Hermínio Perez, Torcuato Labella, …Muito lhes deve a nossa formação pós-graduada. 
Não posso deixar de salientar, também, o apoio inexcedível que a Solvayfarma, desde sempre, garantiu à APO. O Antonio Remechido, o Antonio Pires e a Alexandra Madeira foram as faces visíveis dessa ajuda. 
Ser Presidente de Honra deste Congresso é um enorme motivo de júbilo. Nem sempre o nosso trabalho é reconhecido. Mas estar no meio de amigos, para além dos já referidos, também do Dias Ferreira, Conceição Monteiro ou do Zuma e Maia, meu companheiro de Estrasburgo, para não falar de outros, é uma honra e um momento alto da minha vida profissional.   
 
 
Fragmento de Discurso pronunciado na Reunião Anual da APO em 2015
 
Meus amigos,
 
Dirijo-me principalmente aos organizadores desta reunião, Drs. Conceição Monteiro e Pedro Araújo, e à Direcção da APO para lhes agradecer com a maior sinceridade o terem-me convidado para Presidente de Honra do Congresso.
Esta é uma Sociedade científica que teve na sua origem um pequeno grupo de pessoas, umas talvez desconhecendo outras, mas que, a pouco- e-pouco criaram laços, que na maior parte se estreitaram. Direi que foi uma Sociedade de amigos com uma paixão ou interesse comum – a Otoneurologia. Mas, mesmo como amigos, nem sempre estiveram de acordo. Mas como pessoas civilizadas, direi de novo, como amigos, souberam ultrapassar os diferentes pontos de vista, as controvérsias ou pequenos conflitos que surgiram.
 
Como disse Gabriel Garcia Marquez eu não venho fazer um discurso, tarefa que ao longo da vida sempre me atemorizou. Apenas discorrer sobre alguns aspectos que me parecem relevantes: o valor da amizade que nos une e fazer algumas reflexões sobre a sobrevivência da nossa Associação, que o momento atual dificulta.
Fomos poucos os Sócios Fundadores: dum lado os ORL de Lisboa, de outro os do Porto e ainda os Neurologistas. De Lisboa falo do Dias Ferreira e da Margarida com quem escrevi algumas das primeiras publicações da APO ou do Grupo de Estudos da Vertigem que a antecedeu. Falo do Vitor Gabão, companheiro desde sempre durante a especialidade no HSM e que depois, apesar dos rumos diferentes que seguimos, nos voltámos a encontrar e que ainda mantemos um projeto comum. Falo do Antonio Entrudo que, infelizmente não tem sido aproveitado nas suas excecionais capacidades de desenhador. E por último falo da Conceição que juntamente com o João Martins, e o apoio da nossa amiga Alexandra Madeira (responsável farmacêutica numa girandola de multinacionais), sempre com a cobertura do Vitor Gabão me organizaram uma admirável homenagem que eu nunca terei palavras para agradecer. E insisto no João Martins, que não sendo fundador, tem sido dos mais activos membros da APO e para mim um inexcedível amigo que nem a distância de uma ilha Terceira de Gonçalo Velho tornou uma “primeira” em Telheiras. Estes são todos amigos com quem partilhei experiências, convivi, mutuamente nos ajudámos, discutimos. Os afectos que criámos foram em alguns casos dos mais importantes que tive na vida.
Do Porto vieram o Trancoso e o Rosmaninho, que presidiram em momentos diferentes à nossa associação. Nem sempre os nossos pontos de vista coincidiram, mas há que reconhecer, nomeadamente, o empenho e dedicação do Rosmaninho Seabra na condução da Direção anterior.
 
Falta falar dos Neurologistas, que do grupo dos três iniciais apenas resta no activo o J Pimentel, eterno vice-Presidente, sempre disponível afável, amigo, parceiro e desencaminhador para a escrita de capítulos de livros, amigo do peito, à maneira do Mario Zambujal. Mas impossível não honrar a memória do Carlos Garcia, que até às vésperas de morrer, ele que sabia a doença que o destruía, prosseguiu trabalhando. Uma ou duas semanas antes de falecer com a sua voz já bitonal, telefonar-me a perguntar qualquer coisa sobre um nistagmo... O Carlos foi para mim uma consciência ética. Se o espírito da APO até agora foi o que foi, muito lho deve. 
Foi pois um grupo de amigos que depois agregou internos, outros especialistas, sobretudo ORL e se estendeu a Audiologistas e, posteriormente, a alguns Fisioterapeutas.
Muito há a fazer. Alargar a participação dos Neurologistas. Não é por acaso que os autores de muitos livros por que estudamos ou artigos que lemos, são escritos por Neurologistas ou de parceria com eles. Em Portugal, isso é exceção. Defeito nosso? Não será, mas temos a obrigação de tornar as nossas reuniões atractivas e estimulá-los a participar. Os Neurologistas não são concorrentes, são parceiros, com quem podemos aprender e com quem eles têm de aprender, a bem dos doentes. E quem diz Neurologistas, dirá também Neuro-oftalmologistas. A justificação da nossa sociedade tem de ter estes objectivos em vista. Não pode ser uma réplica da SPORL, se não - perde razão de existir.